Pesquisar entre um período de datas:
 /  /   até   /  / 
Data no formato dd/mm/aaaa

O PARQUE QUE MATA A SEDE DE CUENCA
(25/03/2009)

Por admin

Criado em 1977 como área de recreação, transformado em parque nacional em 1996 e gerenciado há nove anos pela pública Empresa de Telecomunicações, Água Potável e Esgoto (Etapa), Cajas é uma gigantesca caixa d´água encravada nos Andes equatorianos.

Suas águas cristalinas mantidas basicamente pelo degelo de neves e glaciares abastecem seis em cada dez dos cerca de 500 mil habitantes de Santa Ana de los Cuatro Ríos de Cuenca, ou simplesmente Cuenca, terceira maior cidade do Equador e capital da província (estado) de Azuay.

Dependendo da época do ano, entre 230 e 300 lagunas se espalham por seus 28,5 mil hectares, área menor que a do Parque Nacional de Brasília, no Distrito Federal.

“O restante do abastecimento vem de outras bacias hidrográficas no entorno de Cuenca, onde a Etapa possui pontos de captação e tem comprado terrenos com matas nativas para assegurar a produção da água”, contou por e-mail a O Eco Santiago Rodríguez Girón, responsável pelo Programa de Uso Público da Corporação Municipal Parque Nacional Cajas.

A corporação a qual Girón é ligado vem associando proteção do parque com a manutenção da qualidade e da quantidade da água que desce das montanhas, forma rios como Lllaviucu, Luspa, Sunincocha, Jerez e Yantaguhayco e é aproveitada por cidadãos, empresas, escolas e agricultura. Ele explica que a direção da entidade está nas mãos do prefeito local e de um diretor-executivo, seguidos por técnicos em manejo, conservação, desenvolvimento social, uso público e educação ambiental. Sem contar os guardaparques e mão-de-obra administrativa. “Isso perfaz umas 30 pessoas”, disse.

Rodríguez avalia Cajas como um exemplo único no Equador em manutenção de água, já que o município conserva a fonte do recurso, capta, distribui, recolhe e trata os esgotos e devolve água limpa aos mananciais. Parece mágica, mas é apenas gestão pública eficiente. “Inclusive, em nível de América não creio que se encontrem muitos exemplos assim”, comentou.

Olhar nacional

Geógrafa e mestre em Desenvolvimento Sustentável pela Universidade de Brasília (UnB), Andrea Zimmermann avaliou parques nacionais no Brasil, Argentina e Equador para sua tese de mestrado, defendida em julho de 2006. Além de mostrar, à época, que apenas 19 dos 62 parques brasileiros estavam abertos à visitação, notou o quanto estamos atrasados em turismo e gestão de áreas protegidas.

Além da falta de infra-estrutura e dos sempre baixos orçamentos, as ofertas para visitação são quase que somente para caminhadas de um dia, ou banhos de rio, lago ou mar. Por aqui, são raras as aventuras com pernoite, ciclismo, escaladas e descidas em cachoeiras, por exemplo.

Ela visitou Cajas em 2005 e, além de elogiar a facilidade de acesso às informações e sua estrutura para caminhadas, acredita que seu modelo de gestão cairia como uma luva para algumas unidades de conservação brasileiras. "A Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal aproveita águas que vêm do Parque Nacional de Brasília e de outras áreas protegidas para abastecer a população", apontou.

“À época de minha pesquisa, o Ministério do Meio Ambiente do Equador estava com baixa capacidade de gestão e notei que essa parceria (com a Etapa) facilitou muito o gerenciamento do parque de Cajas. É um forma interessante de compartilhar a gestão com a sociedade, que paga um pequeno valor na conta de água pela conservação do parque, mantido em troca de um serviço ambiental, da água”, comentou Zimmermann, montanhista e escaladora que já se aventurou em diversos parques nacionais, no Brasil e no Exterior.  

Conforme Girón, da Corporação Municipal Parque Nacional Cajas, aquela área protegida recebeu quase 40 mil visitantes no ano passado, 65% de equatorianos. “A maioria prefere trilhas, porque são facilmente acessáveis e têm infraestrutura”, contou. Ele também informou que o turismo rendeu a Cajas US$ 160 mil em 2008, algo em torno de R$ 360 mil. As diárias variam de US$ 0,50 a US$ 10 e o pernoite de US$ 1,00 a US$ 4,00. No entanto, o orçamento anual da área gira em torno de US$ 1,5 milhão. “A diferença vem do abastecimento, que gera recursos suficientes para a manutenção do parque”, explicou.

Viveiro andino

O Parque Nacional Cajas é reconhecido mundialmente como grande viveiro de aves e como um “sítio Ramsar”, ou seja, local com grande riqueza em água e espaço para sobrevivência de várias espécies. No Equador, há outras nove áreas com esse carimbo. No Brasil, há oito locais com esse status, como o Parque Nacional da Lagoa do Peixe (RS) e a Área de proteção Ambiental das Reentrâncias Maranhenses (MA).

Mesmo sendo recordista andino em número de lagoas, são 1,4 por quilômetro quadrado, Cajas tem espaço para mais de 150 espécies de aves, 156 de répteis e anfíbios, 38 de mamíferos e muitas plantas. Algumas, só existem por lá. No entorno da área protegida, vivem cerca de 800 pessoas em nove povoados.

A Etapa também informou a O Eco que realiza campanhas para recolhimentos de pilhas usadas, aproveitadas na construção de monumentos, e para coleta de óleos, destinados à produção de cimento.

 

( http://www.oeco.com.br/reportagens/37-reportagens/21298-o-parque-que-mata-a-sede-de-cuenca )

 

  As imagens foram cedidas por Miguel von Behr