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PAIXÃO PELAS ÁGUAS
(26/03/2009)

Por admin

    Margi Moss
Gérard Moss rios voadores Paixão pelas águas Depois de percorrerem a trajetória dos rios voadores - que nascem na Amazônia e regulam o clima do Sul e do Sudeste do Brasil, sendo responsáveis por boa parte das chuvas do país -, Gérard e Margi Moss começam um trabalho de conscientização para a preservação da floresta e, consequentemente, das águas brasileiras. Gérard conversou com o Planeta Sustentável sobre isso

Thays Prado
Planeta Sustentável - 23/03/2009

O inglês Gérard Moss é apaixonado por aventura, passou a infância e a adolescência viajando – e pilotando – de mobiletes a aviões, já morou em um veleiro, é formado em engenharia mecânica e chegou no Rio de Janeiro em 1983 trabalhando no ramo de afretamento marítimo. Abriu uma empresa para exportação de soja e, em 1989, resolveu vendê-la e mudar de vida. Com um monomotor, foi o primeiro a dar a volta ao mundo em um avião leve.

Sua mulher, Margi Moss, o acompanhou nessa aventura por mais de 50 países, que durou até 1992. Queniana, ela cresceu em meio às belezas naturais de seu país, se formou em Letras e se encarregou de registrar em palavras e imagens as viagens que fazia ao lado de Gérard. 

Em 1997, percorreram os pontos cardeais das Américas e sobrevoaram 33 países a bordo do monomotor Sertanejo. Em 2001, Gérard sobrevoou 30 países em 100 dias e cruzou o Atlântico Sul. 

Do ar, o casal, que se naturalizou brasileiro, não só percebeu a importância de cada elemento da natureza como constatou o quanto os seres humanos já destruíram as riquezas naturais. De todas elas, a água foi a que mais despertou a paixão dos dois, que resolveram abraçar a causa.

 Foi daí que surgiu o projeto Brasil das Águas. De 2003 a 2005, o casal coletou amostras de água em 1.160 corpos hídricos, utilizando um avião anfíbio, e fez um diagnóstico completo sobre a qualidade da água no Brasil. Em 2006 e 2007, eles focaram sua atenção em sete rios – Araguaia, Grande (BA), Ribeira (PR/SP), Miranda (RS), Ibicuí (RS), Verde (MT) e Guaporé (MT/RO) – e fizeram um trabalho de conscientização com a população ribeirinha. 

De agosto de 2007 a março de 2009, o novo desafio do casal foi acompanhar a trajetória dos rios voadores, correntes de vapor de água que nascem na Amazônia e distribuem umidade para o Sul e Sudeste do Brasil, Uruguai e Norte da Argentina – e que deram nome ao projeto. A primeira constatação dos Rios Voadores é a de que a Amazônia é fundamental para o equilíbrio do clima brasileiro. Sem ela, ficaremos vulneráveis a eventos extremos – tempestades intensas e períodos prolongados de seca. 

No dia em que apresentou, junto com cientistas, as primeiras conclusões do projetos Rios Voadores, na Praça Victor Civita, em São Paulo, Gérard Moss conversou com o Planeta Sustentável. 

O que os motivou a mobilizar as pessoas para a preservação do meio ambiente? 
Tudo começou com nossa volta ao mundo. Nós assistimos a muita coisa e sentimos que havia muita experiência a ser compartilhada com as pessoas. Tivemos uma visão privilegiada ao observar a degradação da terra de cima e isso precisava ser dividido. No início, nosso envolvimento com a parte científica dos trabalhos que fazíamos era mais tímido e hoje é bem maior. 

Não é uma ironia você ter trabalhado com exportação de soja quando chegou ao Brasil e hoje lutar pela preservação da Amazônia? 
Certamente. Mas eu ganhei dinheiro com a soja e hoje gasto com a Amazônia. Eu acredito que todos nós, brasileiros, até hoje não pagamos a conta da expansão agrícola. Hoje existem 75 milhões de cabeças de gado na Amazônia que não deveriam estar lá. Um dia teremos de pagar essa conta. 

Você costuma chamar o Brasil de país das águas. Por quê? 
Geopoliticamente, somos o único país com capacidade para produzir alimentos para as populações crescentes da China e da Índia. Nesses lugares, falta água e eles não podem produzir, nós podemos. A produção depende de chuvas, e nós temos terreno, clima adequado e chuvas em abundância. 

Como mostram os Rios Voadores, esse regime de chuvas depende da Amazônia, por isso sua defesa à floresta... 
Não preservar a Amazônia é atirar no próprio pé. Na busca por lucros efêmeros, as pessoas estão influenciando as alterações no clima. As mudanças climáticas já estão acontecendo, se retirarmos a floresta, perderemos os serviços ambientais prestados por ela ao Brasil. 

Quais serviços? 
Para citar apenas dois, a Amazônia é capaz de transformar a energia solar em evaporação, portanto ela coloca água na atmosfera que está prestes a se deslocar para outras regiões através dos ventos e ainda evita o aquecimento exagerado do ar. Outro serviço é que a floresta regula o fluxo de umidade ao longo do ano, porque nos períodos mais secos, suas raízes conseguem ter acesso às águas subterrâneas, enquanto o pasto ou a soja não conseguem. 

O projeto quer divulgar a importância da Amazônia como fonte de água para o Sul e Sudeste. E as mudanças já estão acontecendo, de cinco anos para cá a paisagem está diferente, já perdemos 20% dessa cobertura vegetal. Isso altera o volume dos rios e a quantidade de chuvas. O mundo precisa entender que a questão também é econômica e a grande preocupação é o regime de chuvas e os eventos extremos. 

O trabalho de conscientização, como vocês fizeram na etapa Sete Rios, é fundamental para isso... 
Nós trabalhamos com aplicações práticas do que era necessário fazer para mudar a realidade. Fizemos um relatório sobre cada rio, realizamos palestras e constatamos que algumas coisas simples e que não custam nada podem ser feitas para salvar as águas. 

Essa seria uma próxima fase dos Rios Voadores, a de conscientizar as pessoas sobre o assunto? 
Quero investir nisso agora. Nós temos dados científicos suficientes para trabalhar pelos próximos três anos. Então vou diminuir os voos e focar na divulgação. 

Como será feito esse trabalho? 
Ainda não sei, mas conto com o trabalho da imprensa para isso. Por outro lado, a Europa tem demonstrado muito mais interesse sobre esses dados do que o Brasil. Faremos um documentário com uma tevê alemã, temos palestras agendadas em outros 15 países europeus depois disso e o príncipe Charles, quando veio ao Brasil, agendou uma apresentação conosco para abril. (Veja a reportagem Um príncipe na luta contra as mudanças climáticas)

A que você atribui esse interesse? 
O Brasil é visto como um problema e como uma solução. Fala-se muito dos nossos problemas, então quando há algum elemento positivo para destacar, isso ganha prioridade máxima. 

O que você pensa dos investimentos estrangeiros em pesquisas no Brasil? 
Eu sou contra continuarmos investindo esse dinheiro em pesquisas. Hoje temos técnicas para plantar por 20, 30 anos sem derrubar uma árvore sequer. Todos sabem que a grande questão é criar mercado para os produtos sustentáveis, é pagar mais pelos produtos amazônicos para fazer frente à pressão dos grãos e da carne. E os agricultores estão interessados em tornar sua produção mais sustentável, se o BNDES der o incentivo. O comprador no exterior está disposto a pagar 20% mais caro por produtos que preservem a Amazônia. 

Mas falta investimento em ciência e tecnologia no Brasil. Para os brasileiros ainda é difícil fazer um link direto entre as chuvas e a pressão sobre as fronteiras agrícolas. Se há seca no sul, isso também se deve ao desmatamento. Então vamos parar de desmatar até entender essa realidade. 

O Brasil deveria dar mais valor a essa condição de país das águas... 
O Brasil é campeão de chuvas no mundo e esse é o nosso maior patrimônio! Os Estados Unidos já estão usando suas águas subterrâneas, mas isso deve acabar em 15 anos. As condições também não são boas na China. E nós não nos damos conta disso, do quanto é importante preservarmos esse patrimônio. A água é o assunto mais importante da atualidade, não tenho dúvida disso.

( http://planetasustentavel.abril.uol.com.br/noticia/ambiente/conteudo_429956.shtml?func=1&pag=1&fnt=9pt )

 

  As imagens foram cedidas por Miguel von Behr