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Novos modelos de civilização
(26/10/2009)

Por Fábio de Castro

Agência FAPESP – Os modelos de produção agrícola, de uso do solo e de aproveitamento dos recursos naturais que caracterizaram o século 20 não são sustentáveis e levaram a uma crise de abastecimento hídrico, graves alterações climáticas, escassez de matéria-prima e de fontes de energia tradicionais, entre outros problemas. O mundo – e o Brasil em particular – vive atualmente um momento decisivo para a escolha de novos modelos de civilização.

Essa é a síntese da análise realizada por pesquisadores de diversas áreas, nesta terça-feira (20/10), em São Paulo, durante o seminário "Desafios Socioambientais para o Século 21", realizado pelo Instituto de Estudos Avançados (IEA) da Universidade de São Paulo (USP) e que homenageou o geógrafo e ambientalista Aziz Ab'Sáber.

O evento foi realizado em conjunto por diversas entidades nas quais Ab’Saber atuou: IEA, Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), Associação dos Geógrafos Brasileiros (AGB) e Departamento de Geografia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFLCH) da USP.

“Há muitos anos venho refletindo sobre o Brasil e posso falar que um dos maiores problemas da nossa terra é a dificuldade que temos na socialização do conhecimento. Os políticos, de modo geral, não querem ouvir os cientistas e não estão interessados em usar o conhecimento para transformar a realidade. Os geógrafos não têm conseguido mostrar a eles a originalidade do conjunto do país, de sua territorialidade e de seus recursos fantásticos”, disse Ab’Sáber durante a sessão em sua homenagem.

De acordo com o coordenador do seminário, Wagner Costa Ribeiro, pesquisador do IEA e professor do Departamento de Geografia da USP, o evento foi concebido com o objetivo de resgatar aspectos da trajetória de Ab’Saber, analisando e discutindo o tema dos desafios socioambientais.

“Entre tantas virtudes do professor Ab’Saber, uma das maiores é a profunda capacidade de projetar e analisar cenários. Por isso achamos que a homenagem ideal a ele seria propor uma reflexão sobre a condição contemporânea, projetando cenários futuros e mostrando como a obra dele continua influenciando a busca de alternativas que resultem em maior inclusão social e resolução de problemas ambientais”, disse à Agência FAPESP.

Segundo Ribeiro, a necessidade de optar por novos modelos agrícolas e energéticos motivou a realização do seminário. “É um momento propício para a discussão e proposição de alternativas e modelos. A sociedade brasileira precisa ter consciência de que ainda é possível pensar em modelos de desenvolvimento que sejam mais adequados às condições socioambientais do país. Mas, para isso, é importante pensar de uma maneira integrada – como sempre propôs Ab’Saber”, disse.

Durante o seminário, Carlos Alfredo Joly, professor do Instituto de Biologia da Universidade Estadual de Campinas e coordenador do Programa Biota-FAPESP, apresentou palestra sobre o tema “Biodiversidade e Mudanças Climáticas: de Copenhague a Nagoya”.

Segundo Joly, no Brasil as questões de conservação da biodiversidade e das mudanças climáticas estão fortemente associadas, já que a principal fonte de emissão de dióxido de carbono no país é o desmatamento e a queima de florestas.

“Estamos contribuindo com o aquecimento, enquanto poderíamos estar ajudando a reduzi-lo significativamente. Se diminuirmos em 50% o desmatamento de forma sustentável, isso significaria redução total de 35% de gases de efeito estufa. Por isso, acho que a posição de negociação do Brasil na Convenção de Mudanças Climáticas tem sido muito tímida”, disse à Agência FAPESP.

Para Joly, o país deveria estar na liderança das negociações sobre mudanças climáticas, principalmente porque o país tem uma matriz energética hidrelétrica e dispõe de um combustível renovável, que é o etanol. E, segundo ele, a redução brasileira de emissões de gases de efeito estufa não é um impedimento para o desenvolvimento econômico.

“Em 2010 vamos ter a COP10 da Biodiversidade em Nagoya, no Japão, onde os países terão que demonstrar que cumpriram os compromissos assumidos em 2002 na convenção realizada na Holanda, como a redução de perda de biodiversidade. Se não mudarmos o modelo que está derrubando florestas para transformar em área de pecuária, não vamos chegar nem perto de cumprir essas metas”, afirmou.

Segundo ele, se o governo brasileiro assumir – na Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP15), que será realizada em dezembro – metas internacionais da ordem de 40% de redução de emissão de gases de efeito estufa, isso ainda permitiria que o país continuasse com taxas de crescimento de 4,5% a 5% para a próxima década.

Paisagens diferentes

Vera Lúcia Imperatriz Fonseca, professora do Instituto de Biociências da USP, apresentou a palestra “Serviços ambientais, agricultura e conservação no Brasil”. Segundo ela, a o uso inadequado da terra para fins agrícolas tem causado grandes impactos na conservação da biodiversidade.

“Temos trabalhos científicos que mostram como, no Mato Grosso, houve, entre 2002 e 2005, um grande surto de desmatamento. Quase um terço do Cerrado no Estado foi consumido para o agronegócio nesse período. Foi uma expansão fantástica dos negócios, mas não conseguimos conciliar a agricultura a uma paisagem sustentável. Temos que trabalhar em um novo modelo agrícola e de conservação. Mas, por enquanto, o modelo que temos à disposição se baseia em grandes extensões de plantio”, disse.

Segundo Vera Lúcia, o conjunto dos estudos mostra que é preciso desenhar uma nova paisagem agrícola, mantendo áreas conservadas junto às plantações, a fim de garantir a manutenção de serviços ambientais como a polinização.

“Observamos casos como o do açaí, que, ao ganhar importância econômica, estimulou pequenos agricultores de certas áreas da Amazônia a derrubar a floreta para plantá-lo. Mas, com isso, desapareceram as abelhas presentes nessas florestas, que eram responsáveis pela polinização do próprio açaí. A própria produção dependia do serviço ambiental prestado pelas abelhas”, explicou.

Jose Roberto Moreira, do Instituto de Eletrotécnica e Energia (IEE) da USP, falou sobre “Desafios ambientais: a questão da energia e dos recursos hídricos”. Ele alertou para um grave problema de política internacional que envolve a questão ambiental e a produção de biocombustíveis – em particular o etanol e o biodiesel.

“As nações ricas não têm possibilidade de produzir o etanol a partir da cana-de-açúcar, que é sem dúvida a melhor a fonte de produção de energia – a mais sustentável, que cria menos problemas sociais e ambientais. Esses países, portanto, estão criando barreiras técnicas para justificar e poder limitar a importação desse produto de países tropicais”, disse.

Moreira apresentou estudos que vêm sendo realizados nos Estados Unidos e na União Europeia, voltados para embasar a criação de um protocolo de certificação de produtos derivados da biomassa para exportação.

“Esse protocolo, feito até um determinado grau de complexidade, ajuda e estimula a produção de bioenergia, melhorando suas condições e até mesmo trazendo até vantagens para o Brasil. Mas, a partir de certo ponto, ele cria custos excessivos que podem impedir a competição internacional. Estamos preocupados em relação a essa certificação”, disse.

Segundo ele, a certificação exigirá demonstração rigorosa dos impactos ambientais e sociais, com provas de que haverá retorno econômico para populações de baixa renda.

“Isso é bom a princípio, mas eles estão imaginando que o fato de substituir um combustível por outro será suficiente para acabar com a miséria do mundo. Trata-se de um ponto de vista extremamente infantil. Na realidade, esses países estão usando argumentos ditos técnicos para criar barreiras para nossos produtos”, afirmou.

Participaram ainda do seminário o diretor do IEA, César Ades, Claudio Antonio Di Mauro, da Universidade Federal de Uberlândia, Nabil Bonduki, da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, e Odette Seabra, José Bueno Conti e Elvio Rodrigues Martins – os três últimos da FFLCH-USP – que falaram sobre os temas “Metrópole paulistana: qualidade de vida e proteção ambiental” e “Transformação da paisagem brasileira”.

 

  As imagens foram cedidas por Miguel von Behr