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Explorador dos Mares
(14/01/2010)

por Agência Costeira

Pesquisador francês apresenta projeto de navio-laboratório com 51m de altura cuja maior parte ficará submersa para permitir o estudo aprofundado do oceano

Há quem o compare a um iceberg ou à nave Enterprise, da série Jornada nas estrelas, afundada no oceano. No entanto, por trás da aparência estranha, está a expectativa da humanidade para um salto gigante na exploração dos mares.

Trata-se do Sea Orbiter, uma enorme estrutura de 51m de altura - equivalente a um prédio de 15 andares - definida como o primeiro navio vertical do mundo, que dá à luz uma nova geração de embarcações voltadas para a exploração oceanográfica. 

"Uma aventura digna do ser humano, como as grandes explorações multidisciplinares dos séculos passados", compara o francês Jacques Rougerie, arquiteto do mar com mais de 25 anos de experiência na construção de habitats submarinos e idealizador da façanha.

A comparação feita com um iceberg se explica porque apenas um terço da estrutura ficará acima d'água. Essa parte vai abrigar laboratórios de estudos sobre a variação climática e sobre as correntes marítimas, entre outros temas, além de ferramentas de navegação, equipamentos de comunicação e uma plataforma de vigília. Contudo, a grande inovação no navio estará submersa. Por janelas enormes, os pesquisadores poderão assistir à vida marinha 24 horas por dia, sem assustar ninguém. 

Como não possui velas e seus motores serão raramente acionados, o Sea Orbiter será como um objeto solto no oceano, o que deverá atrair a fauna marinha. Os tripulantes poderão sair direto da parte debaixo da embarcação para o oceano, como numa nave no espaço. "O Sea Orbiter será como uma estação espacial, só que no mar", define Rougerie.

Em dezembro, o francês apresentou o protótipo da estação oceanográfica ao público, orçada em 35 milhões de euros. No momento, ele diz ter a metade da quantia necessária para a construção do navio e se mostra confiante em conseguir o resto do montante. 

"Há um ano, a probabilidade de o Sea Orbiter sair do papel era de 50%. Hoje, eu diria que é de 90%", diz ao Correio. O design da estação tem a colaboração do primeiro astronauta francês, Jean Loup Chrétien, e do explorador Jacques Piccard, o mesmo que desenvolve o Solar Impulse, avião que tentará dar a volta na Terra utilizando apenas energia solar.

A principal inovação promovida pelo Sea Orbiter é permitir que os oceanógrafos mergulhem por períodos mais longos de tempo, sem que a presença da estação cause perturbação no meio ambiente submarino. 

A estrutura abrigará uma equipe internacional de 18 pessoas, sendo que oito delas viverão abaixo do nível do mar e as outras 10, acima. Com um sistema de navegação que utiliza as correntes marítimas, o navio será capaz de dar a volta ao mundo em dois anos, algo que o diferencia das outras estações oceanográficas, que são fixas.

Equipado com salas científicas e estação de mergulho em diversos andares, os cientistas poderão colher dados e amostras para contribuir com estudos sobre biodiversidade, clima, impacto do aumento de gás carbônico nos oceanos e monitoração da poluição nos organismos marinhos. A infraestrutura vai permitir longas jornadas no mar, de até seis meses. 

"Atualmente, os pesquisadores mergulham durante um curto período antes que tenham de ser trazidos de volta à superfície. É como se eles fossem levados para estudar a Floresta Amazônica e, depois de uma hora, um helicóptero voltasse para pegá-los", compara Rougerie.

Além de ganhar mais tempo para as explorações submarinas, o Sea Orbiter também promoverá estudos psicológicos desenvolvidos em um meio subaquático, com tripulantes confinados em condições extremas. Com isso, o navio vertical poderá ser útil para o treinamento de astronautas, já que as condições subaquáticas são semelhantes às espaciais. 

Conhecimento

Embora representem 70% da superfície do nosso planeta, os oceanos ainda são muito pouco conhecidos. É sabido, porém, que eles desempenham um papel fundamental para o futuro da Terra, como a regulação do clima. Por isso, o navio vertical também pode ser uma ferramenta útil para estudar a ligação entre o aquecimento global e os oceanos. 

"A comida e os medicamentos do futuro virão dos mares. Somente agora estamos começando a perceber que os oceanos têm um papel importante no frágil equilíbrio do nosso planeta", afirma Rougerie.

Elisabete de Santis Braga, pesquisadora do Instituto de Oceanografia da Universidade de São Paulo (IO/USP), acha que já era tempo de voltar os olhos para a pesquisa nos oceanos. Ela acredita que toda a tecnologia desenvolvida para o espaço pode ser utilizada também para a exploração submarina. 

"Antes de abandonar o planeta, temos de conhecê-lo. E o mar é tão misterioso quanto o espaço para os cientistas." Elisabete acredita que as novas explorações promovidas pelo Sea Orbiter trarão mais conhecimento sobre a dinâmica dos oceanos. "Principalmente em relação às oscilações do nível do mar, podendo prever sua movimentação e assim evitar catástrofes, além da pesquisa no avanço da descoberta de riquezas marinhas", completa.

(Silvia Pacheco)

(Correio Braziliense, 5/1)

 

  As imagens foram cedidas por Miguel von Behr