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Extinção na praia
(06/08/2008)

Por admin

Restingas do Rio abrigam uma das aves mais ameaçadas do mundo Ana Lucia Azevedo escreve para “O Globo”: Uma das aves em maior risco de extinção de toda a Terra tem como único refúgio uma das áreas do estado do Rio de Janeiro mais ameaçadas por invasões e especulação imobiliária. Conhecido como com-com ou formigueirodo-litoral (Formicivora littoralis), esse passarinho é a única ave exclusiva de restinga do Brasil. Ele vive nos cada vez menores bosques à beira-mar e é encontrado somente na faixa que vai de Saquarema ao início de Búzios, em especial na Restinga de Massambaba. Da preservação da Massambaba — a mais peculiar e rica das restingas do Sudeste — depende a sobrevivência da espécie. Dono de cores discretas — tons de negro (macho) e marrom (fêmea) — o com-com mede cerca de 12 cm. Uma criatura pequena com imensos problemas, destino incerto de quem disputa espaço com loteamentos, condomínios e banhistas em algumas das praias mais bonitas do estado. O formigueiro-do-litoral foi descoberto só nos anos 90 e ainda se sabe muito pouco sobre ele. Sequer o tamanho exato da população é conhecido, mas qualquer redução fará diferença para uma espécie de habitat tão restrito. Na última Birdfair, realizada em 2007 na Inglaterra, foram destacadas quatro dentre as 190 espécies de aves criticamente ameaçadas de extinção — a mais grave de todas as categorias de risco estabelecidas pela União Mundial para a Conservação da Natureza (IUCN, na sigla em inglês), responsável pelas listas globais de animais e plantas em extinção. A Birdfair reúne os principais especialistas do mundo em aves. Além do formigueiro-do-litoral foram selecionadas uma ave do México, uma do Djibouti e outra do Camboja. — As quatro espécies de aves correm similar risco de desaparecer em pouco tempo. Todas estão em situação desesperadora. O formigueirodo-litoral é a única espécie do Brasil no grupo e foi incluído porque existe apenas numa pequena faixa costeira — explica a especialista na espécie Maria Alice dos Santos Alves, pesquisadora do Laboratório de Ecologia de Aves do Departamento de Ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e do Instituto Biomas. O habitat abrange uma área de cerca de 200 quilômetros quadrados, altamente fragmentados. Até há bem pouco tempo se achava que seu limite norte era a Praia do Peró, em Cabo Frio, mas recentemente foi descoberta uma população isolada em Tucuns, Búzios, pela equipe de Maria Alice. — Moradores da Região dos Lagos que conhecem esse passarinho ficam surpresos quando descobrem que ele corre risco tão grande. Como ele não é muito difícil de encontrar, dá a ilusão de que é comum. Mas isso está longe de ser verdade — diz o biólogo Maurício Brandão Vecchi, da Uerj e da Pingo D’Água, uma ONG ambientalista da Região dos Lagos que luta pela preservação do com-com. A ave ganhou esse último nome em alusão ao som que emite. Aliás, a voz é a melhor forma de localizar o passarinho, que gosta de se embrenhar na vegetação de restinga, conhecida por suas muitas plantas com espinhos e moitas cerradas. O nome formigueiro vem da família de pássaros à qual ele pertence. Um Plano de Ação para salvar a espécie está sendo elaborado, com coordenação do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e da SAVE Brasil (afiliada da Bird Life International). — É preciso proteger a restinga, em especial a Massambaba, se quisermos salvar essa espécie. A APA da Massambaba não é suficiente e a criação de um parque estadual da região não é só bem-vinda quanto urgente — diz Maria Alice. Sob o domínio do Atlântico Lá chove quase tão pouco quanto no sertão. O ar é seco, o céu, azul. Não há rios. Mas, apesar disso, é uma terra sob o domínio da água, a do mar. Correntes do Atlântico e o fenômeno da ressurgência — afloramento das águas geladas das profundezas na altura de Cabo Frio — ajudaram a forjar o clima peculiar da Restinga da Massambaba. E esse clima fez da região (que engloba parte de Cabo Frio) um dos 14 centros de diversidade de plantas do Brasil. Plantas que servem de abrigo e alimento para muitas espécies de animais. — É uma região muito especial, também influenciada pela salinidade da Lagoa de Araruama, pelo vento nordeste constante. Não é à toa que a Praia Seca, onde fica boa parte da restinga, tem esse nome. No município do Rio caem cerca de 1.400 milímetros de chuva por ano. Em Massambaba, a média anual é de 800 milímetros — explica o botânico Cyl Farney Catarino de Sá, do Jardim Botânico do Rio, que há anos estuda a restinga. Um trabalho inédito do grupo de Dorothy Sue Dunn de Araújo, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, de Janeiro, revelou que existem 667 espécies de plantas somente na Área de Preservação Ambiental da Massambaba, que não contempla toda a restinga. — Lá é bem diferente do restante do litoral do estado. As correntes marinhas parecem fazer uma curva ali, as serras estão mais afastadas da praia. Tudo isso contribui para um clima mais seco. É uma região riquíssima — diz Dorothy. Essa riqueza se exibe em numerosas espécies de cactos, arbustos e até o pau-brasil. A vegetação que parece caatinga — mas não é, esclarecem Dorothy e Cyl Farney — é uma relíquia de tempos mais secos, surgida há milhares de anos. Como centenas de outras espécies de plantas e animais, o formigueirodo-litoral depende da Restinga da Massambaba para sobreviver, mas também pode contribuir para protegê-la ao se tornar uma espécie símbolo da preservação.

 

  As imagens foram cedidas por Miguel von Behr