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Justiça dos EUA flagra sabotagem científica
(01/10/2010)

Por Agencia Costeira

Pesquisador acusado de solapar estudos alheios teve de pagar multa

Entre casos de direção embriagada e outros tipos de delito julgados no condado de Washtenaw, em Michigan (nordeste dos EUA), havia o de um pós-doutorando. Seu crime: sabotar amostras de uma colega de laboratório.

O fato foi divulgado na edição de ontem da revista científica "Nature", uma das mais importantes do mundo.

De acordo com a publicação, a ciência está "acostumada" a lidar com falsificação de dados, plágio e outras formas de má conduta. 

Mas, ao que tudo indica, ainda não se sabe direito como agir para evitar as sabotagens científicas. E os cientistas ainda não fazem ideia de como investigar ou punir esse tipo de fraude nos corredores acadêmicos. 

No caso de Michigan, o pós-doutorando indiano Vipul Bhrigu foi pego no pulo, mexendo e espirrando substâncias na cultura de células da sua colega de laboratório, a doutoranda Heather Ames.

O flagra aconteceu após a instalação de câmeras no laboratório -o que foi feito com a insistência de Ames.

Ela andava desconfiada de que algo estava muito errado com a sua pesquisa.

Bhrigu confessou o crime (alguns meses de sabotagem), disse estar arrependido, teve de pagar cerca de US$ 10 mil à universidade e voltou para a Índia.

Ames, por sua vez, quase abandonou a ciência depois do episódio. Decidiu ficar após dar algumas palestras sobre o seu caso. "Isso me ajudou a recuperar a confiança", relata à "Nature".

O debate instalado pela revista britânica pode se resumir numa pergunta: o que leva pesquisadores a sabotarem a pesquisa alheia?

De acordo com o antigo orientador de Bhrigu, o biólogo James Trempe, da Universidade de Ohio, ele era "um pesquisador médio".

Assim, talvez na ânsia de impedir que os colegas se mostrassem melhores que ele -e pressionado pela concorrência acirrada já relatada nos laboratórios de universidades americanas-, o indiano tenha chegado ao ponto de estragar a pesquisa alheia. 

O caso da sabotagem entre colegas que aconteceu em Michigan certamente não é único e não se dá apenas com cientistas novatos.

Para a "Nature", o problema é que a sabotagem, que pode incluir roubo de projetos, de dados ou obstrução do trabalho de um colega, é complicada de mensurar.

Alguns laboratórios já têm adotado táticas para evitar sabotagem, como colocar números nos frascos em vez de anotar o seu conteúdo.

Isso impediria que os colegas, sem saber o que há nesses recipientes, roubem ou destruam as soluções.

Brasileira foi vítima de má fé no exterior

Casos de má conduta, como plágio, já foram relatados na ciência brasileira. Dois episódios levantados pela Folha mostram que a sabotagem direta também pode afetar pesquisadores do país -no caso, cientistas brasileiras que estavam trabalhando em laboratórios do exterior.

Em um deles, uma brasileira, que não quis se identificar, cursava doutorado numa universidade da Alemanha quando foi vítima de sabotagem.

Ela teve trechos da sua pesquisa de campo copiados por uma colega mexicana enquanto passava férias no Brasil.

"Não pude fazer nada. Quando voltei, a pesquisadora que copiou os dados já havia apresentado o trabalho à banca. Tive de recomeçar a pesquisa com outro foco", conta Gerusa (nome fictício).

Na época, ela tentou comentar o fato com a coordenação do seu curso, mas não foi ouvida. "Se eu fosse alemã, talvez o caso tivesse alguma repercussão no país", relata. 

Problemas pessoais também podem resultar em sabotagem. Foi isso que presenciou outra brasileira que faz pesquisa nos Estados Unidos. 

Ela viu uma funcionária de um laboratório da sua universidade jogar fora um gel usado numa pesquisa de um espanhol que, havia alguns meses, tentava clonar um gene importante para seu estudo.

"A técnica estava brava porque o pesquisador havia gritado com ela anteriormente. O experimento foi perdido", conta Camila (nome também fictício).

Em nenhum dos casos envolvendo as brasileiras houve alguma punição aos infratores.

(Sabine Righetti)

(Folha de SP, 30/9)

 

  As imagens foram cedidas por Miguel von Behr